História

Guerra do Contestado, o que foi? História, causas e consequências

A Guerra do Contestado foi um conflito entre camponeses e as forças armadas do governo, na região da fronteira entre Paraná e Santa Catarina.

Atualizado em 17/09/2020
Por Dayane Borges

A Guerra do Contestado, apesar de não ser tão conhecida, é classificada com um dos maiores conflitos do século 20, no Brasil. Ocorrida entre 1912 e 1916, a guerra foi uma disputa armada entre camponeses e soldados do Exército.

Um dos principais motivos do conflito na região – que engloba os estados de Santa Catarina e Paraná – foi a construção de uma estrada de ferro. A estrada seria uma ponte entre as cidades de São Paulo a Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Após a construção da ferrovia, os conflitos entre os estados do Paraná e Santa Catarina – que já eram intensos por conta da posse de terras – foi agravado.

Isso porque, vários camponeses que moravam na Região do Contestado foram desalojados para a então construção da ferrovia, liderada por Percival Farquhar, empresário estadunidense.

Inclusive, Farquhar era dono da madeireira Southern Brazil Lumber & Colonization Company. Ou seja, além de se beneficiar com os mais de 15 quilômetros de estrada cedidos pelo governo, o empresário também aproveitou a abundância de madeira e erva-mate da região do Contestado.

Mas, para entender o desenrolar da Guerra do Contestado, é preciso compreender o contexto histórico. Então, vamos lá!

Contexto histórico da Guerra do Contestado

A princípio, antes do início da Guerra do Contestado, é importante entender que o Brasil dos anos de 1900 passava por intensas mudanças, principalmente, relacionadas à industrialização. Com isso, a construção de estradas já era comum em vários estados brasileiros.

Guerra do Contestado, o que foi? História, causas e consequências
Mapa do local da Guerra do Contestado.

Dessa forma, com os contratos fechados entre Percival Farquhar – dono da empresa norte-americana Brazil Railway Company – o processo de desapropriação foi iniciado no perímetro de terra que ligava a região Sul e Sudeste.

A estrada, que atravessa os estados do Paraná e Santa Catarina, faria ligação entre São Paulo e Rio Grande do Sul, passando pela Região do Contestado. Muitos camponeses que moravam na região tiveram que sair por conta da construção.

Inclusive, a grande parte dos posseiros que ali viviam, viviam do cultivo de erva-mate e da madeira, abundante na região. Com isso, muitas famílias perderam suas terras e, consequentemente, a fonte de sustento.

O governo, então, prometeu aos camponeses que, com a construção da ferrovia, todos teriam trabalho na região. Entretanto, após a construção da rodovia, a quantidade de pessoas desempregadas era assustador.

Guerra do Contestado, o que foi? História, causas e consequências
Avelino Ferreira

Ao contrário do que foi prometido, os posseiros não tiveram suas terras ressarcidas e, muio menos, oportunidade de trabalho. Além disso, mesmo depois da construção da estrada, muitos donos de terras eram obrigados a se retirar do local, por parte dos grandes proprietários.

Nesse sentido, a situação sócio-política da região só piorava, causando insatisfação popular e diversos problemas sociais, como a má qualidade de vida das pessoas desempregadas. Logo, todos esses fatores contribuíram para o início da Guerra do Contestado.

Movimento messiânico

Em síntese, como a promessa do governo de garantir emprego e moradia aos posseiros não foi cumprida, a quantidade de pessoas em condições deploráveis só aumentava. As áreas pobres do Brasil, por exemplo, estavam completamente desassistidas pelos representantes políticos.

Ao mesmo tempo, e justamente por conta da situação de abandono do governo, começaram a surgir grupos messiânicos que pregavam paz e justiça aos povos em más condições.

Na região Nordeste se destacou o líder religioso Antônio Conselheiro, enquanto na região Sul, João Maria Agostini, era o principal representante. Assim, os líderes religiosos peregrinavam por diversas regiões, com o intuito de promover humildade e paz.

O Jornal SC

Da mesma forma, enquanto os conflitos na Região do Contestado se agravavam, surgiu José Maria de Santo Agostinho, figura religiosa que atuou no contexto histórico da Guerra do Contestado.

Os trabalhadores que a companhia ferroviária havia abandonado, começaram a se juntar ao pregador messiânico. Logo, incentivados por Santo Agostinho, os camponeses criaram uma comunidade, chamada de Quadrado Santo.

Na comunidade, o monge realizava diversas atividades medicinais, por meio de ervas, e chegou à criar uma farmácia popular. A região começou a atrair, cada vez mais, camponeses que estavam sem terra e os desempregados que ficaram desamparados após a construção da Rodovia.

Assim, com o crescimento da comunidade, os coronéis da região não ficaram incomodados. Sendo assim, os poderes locais e o federal consideraram o monge como inimigo da república, dando início a Guerra do Contestado.

A Guerra do Contestado

Com o crescimento da comunidade do Quadrado Santo, muitos camponeses e desempregados procuravam a região para se abrigar.

A situação causou inquietação nos coronéis, que acreditavam que o grande número de pessoas causaria uma revolta contra o governo.

Guerra do Contestado, o que foi? História, causas e consequências
Senado Federal

Insatisfeitos com a comunidade, os grandes fazendeiros iniciaram uma onda de ataques à comunidade, em 1912.

Os ataques foram apoiados pela força pública e soldados armados. Do lado da comunidade, pessoas armadas somente com espingardas, machados e facões.

Durante o conflito, iniciado em 1912, diversos sertanejos morreram e outros mais fugiram para as cidades vizinhas. O líder religioso, José Maria, acabou morrendo no combate contra os soldados do governo.

Com isso, após a morte do monge, Maria Rosa – conhecida como a Joana D’Arc do Sertão – se tornou uma das personalidades mais referenciadas durante a Guerra do Contestado.

Isso porque, a jovem de apenas 15 anos, dizia que recebia ordens diretas de José Maria, que dava conselhos sobre o contra-ataque na guerra. Com a reorganização da comunidade, outros conflitos ocorreram, em 1914.

Guerra do Contestado, o que foi? História, causas e consequências
Agência ALESC

Após uma grande vitória dos revoltosos, em março de 1914, a comunidade se viu cheia de esperança.

Além disso, começaram a usar técnicas de guerrilha e criaram um Manifesto Monarquista. Além disso, organizaram invasões nas fazendas dos grandes proprietários de terra e coronéis.

A ação dos camponeses fez com o que o governo chamasse o general Carlos Frederico de Mesquita para liderar as ações contra a comunidade.

O general, inclusive, já havia participado de movimentos semelhantes, como a Guerra de Canudos.

Consequências

Ao todo, a Guerra do Contestado foi um conflito que durou 4 anos (1912 a 1916). A comunidade Quadrado Santo – formada por sertanejos do planalto catarinense e pelos ervateiros dos vales dos rios Negro e Iguaçu – lutou bravamente contra as forças militares do governo de Hermes Rodrigues da Fonseca, presidente do Brasil na época.

A guerra deixou mais de 10 mil mortos e feridos entre os camponeses. O último líder da comunidade, Deodato Manuel Ramos, foi capturado durante os ataques à comunidade e acabou preso, em agosto de 1916.

Avelino Ferreira

Após a prisão de Deodato, a Guerra do Contestado chegou ao fim. A guerra, que representou a disputa de terra entre ricos e pobres, deu início a luta pela posse de territórios em várias partes do Brasil, no início do século 20.

Por fim, as terras da comunidade do Quadrado Santo, voltaram a fazer parte do território dos grandes fazendeiros. Além disso, os camponeses e trabalhadores de outras regiões que residiam na comunidade ficaram novamente desamparados pelos governo.

Além da Guerra do Contestado, diversas outras guerras ocorrem durante o primeiro ano da república no Brasil. Dentre elas: Guerra de Canudos; Revolta da Chibata; Revolta do Forte de Copacabana e Revolta da Vacina.

O que achou da matéria? Se gostou, confira também o que foi a Guerra dos Bárbaros e quais são as características da Sociedade Romana.

Fontes: Brasil Escola, Toda Matéria, Aventuras na História e Educa mais Brasil 

Imagens: Estado de Minas, Iarochinski, Senado Federal, Agência ALESC, O Jornal SC e Avelino Ferreira

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