Já reparou que todo poema parece ter uma voz que se abre para contar sentimentos, pensamentos ou memórias? Essa voz é o eu lírico: a figura que fala dentro da poesia, transmitindo emoções e dando sentido aos versos. Não é, necessariamente, o autor, mas sim uma persona criada para expressar o que o texto deseja transmitir.
Neste texto, a gente vai te explicar o que é eu lírico, apresentar exemplos e muito mais. Vamos lá?
O que é eu lírico?
Sabe quando um poema parece conversar diretamente com quem está lendo, revelando emoções, pensamentos ou até mesmo lembranças? Essa voz que fala dentro do poema é chamada de eu lírico.
Ele funciona como o narrador da poesia, mas, diferente de um narrador comum, o eu lírico não conta apenas fatos. Isso porque ele transmite sensações, desejos, angústias, alegrias e tudo aquilo que dá vida aos versos.
Portanto, é por meio dele que o poeta expressa o que quer dizer, seja sobre si mesmo ou sobre algo imaginado.
Exemplos
Algumas frases para pensarmos o eu lírico de forma mais generalizada, antes de ir para o poema propriamente dito:
- “Hoje acordei com saudade, mas não sei de quem.”
- “Somos filhos da mesma teterraterrarra, e nela deixaremos nossas histórias.”
- “Sou o vento que acaricia o mar e move as folhas no outono.”
Agora veja a estrofe do poema “Soneto da Felicidade”, de Vinicius de Moraes:
“De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.”
Neste poema, o eu lírico se expressa em primeira pessoa, declarando um amor intenso e eterno. Apesar de parecer que Vinicius está falando de si mesmo, o eu lírico é uma voz poética criada para transmitir esse sentimento, e não necessariamente a experiência real do autor
Agora veja o poema de Cora Coralina, “Todas as Vidas”:
“Vivi os meus dias
de mulher do povo,
de mãe de família,
de cozinheira e doceira.”
Aqui, no poema de Cora Coralina, o eu lírico fala em primeira pessoa, contando experiências e identidades que viveu ou até mesmo acabou incorporando. Vale lembrar que, embora o poema tenha pontos em comum com a vida real de Cora, o eu lírico é uma construção poética que une a memória, a emoção e a imaginação.
Como identificar o eu lírico em um poema?
O primeiro passo é identificar quem está “falando” dentro do texto. Como a gente já viu, é justamente essa voz que transmite sentimentos, pensamentos ou experiências ao longo dos versos.
Portanto, não confunda com o autor: o eu lírico é um personagem poético, e pode até assumir formas bem diferentes, uma vez que pode ser uma pessoa, um animal, um objeto ou até um elemento da natureza.
Vamos ver isso na prática usando o poema “O Bicho”, de Manuel Bandeira:
“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos…”
Aqui, o eu lírico é uma voz que testemunha e relata uma cena triste e realista. Ele fala em primeira pessoa (“vi ontem”), mostrando que foi a testemunha direta do que aconteceu.
Diante disso, ao identificar quem narra e qual é a sua perspectiva sobre o que está sendo narrado, conseguimos reconhecer o eu lírico.
Qual a diferença entre eu lírico e autor?
Apesar de caminharem juntos, é importante deixar claro que eu lírico e poeta não são a mesma coisa. O poeta é a pessoa real, de carne e osso, que escreve o poema.
Em contrapartida, o eu lírico é uma voz criada dentro do texto, um ser abstrato que transmite as emoções, pensamentos e histórias que o poema quer contar.
Para ficar claro, pense assim: o poeta é o “diretor” e o eu lírico é o “ator” que entra em cena. O poeta inventa, mas é o eu lírico que vive as situações e fala diretamente com o leitor.
Como a gente viu no poema Soneto de Fidelidade, de Vinicius de Moraes, o eu lírico diz:
“De tudo, ao meu amor serei atento…”
A gente sabe que quem escreveu foi Vinicius (o poeta), mas a voz que fala dentro do poema, o eu lírico, é uma criação poética. Certo? Ele pode até parecer falar por Vinicius, mas não necessariamente expressa a vida real do autor.
Qual a diferença entre eu lírico e narrador?
Apesar de ambos serem “vozes” que surgem dentro de um texto, eles se apresentam de formas bem diferentes. O narrador, por exemplo, aparece nos textos narrativos (como contos, romances ou crônicas) e é quem conta a história, apresentando os acontecimentos, personagens e cenários.
Já o eu lírico vive no universo dos poemas e textos líricos, expressando sentimentos, emoções e percepções. Na prática, dá para pensar no narrador conduzindo uma trama, enquanto o eu lírico se debruça nas emoções.
Veja um exemplo de narrador, um trecho de “Dom Casmurro”, de Machado de Assis:
“Uma tarde destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu.”
Aqui, temos um narrador-personagem contando uma história com fatos e acontecimentos.
Agora, um exemplo de eu lírico, trecho de “O Bicho”, de Manuel Bandeira:
“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos…”
Nesse caso, a voz não está narrando uma sequência de eventos como em um romance, mas transmitindo uma impressão e um sentimento sobre a cena observada.
Então, o que achou da matéria sobre eu lírico? Se gostou, leia também: Tipos de narrador – O que são, quando surgiram e características
Fontes: Mundo Educação, Toda Matéria, Brasil Escola.