Ciências

Uma parte surpreendente do corpo pode estar causando Autismo

Atualizado em 02/03/2017

O estresse pode se manifestar em várias partes do corpo, por exemplo, no estômago. Mas parece que o contrário também acontece, problemas no intestino e estômago podem afetar o cérebro.

Essa relação de duas vias pode ser a resposta para um “enigma” que perdura por quase 60 anos, a causa do autismo. Desde que o distúrbio foi identificado o número de casos aumentou, no entanto, ainda não há cura e nem causa conhecida.

As bactérias intestinais em indivíduos com autismo não são apenas diferentes, elas podem realmente contribuir com a doença.

Cientistas descobriram pistas no intestino de indivíduos com autismo. A pesquisa revelou que as bactérias que vivem no trato digestivo de pessoas com autismo são espantosamente diferentes de pessoas “normais”.

Os pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia mostraram, pela primeira vez, que podem realmente contribuir com o “tratamento” da doença. Eles relataram na revista Cell que um tratamento com probióticos aliviou os comportamentos típicos de pessoas com autismo.

O novo estudo sugere que os probióticos podem melhorar o comportamento em pessoas com autismo, diz Paul Patterson , professor de biologia no Instituto de Tecnologia da Califórnia. “O que mostramos  é que se você bloquear o problema gastrointestinal, você pode tratar os sintomas comportamentais”, diz ele. “Há um relacionamento causal.”

Tratamento para o autismo pode, um dia, vir na forma de probióticos, algo semelhante com os lactobacilos vivos dos leites fermentados.

Em paralelo, um novo estudo mostrou que infecções graves na gestação, como uma gripe forte, altera a flora intestinal dos bebês. A descoberta é extremamente relevante para as pesquisas sobre o autismo, pois sabe-se que até 90% das crianças com autismo sofrem com problemas gastrointestinais.

Microbiota intestinal e Imunologia

Mas essa alteração da flora intestinal é o que causa o transtorno?

Para entender essa relação os pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia, baseados em estudos anteriores mostrando que mulheres que gripavam na gravidez tinham duas vezes mais chances de dar a luz a uma criança com autismo, fizeram um experimento com ratos e seus filhotes.

No experimento as fêmeas que estavam grávidas eram infectadas com um vírus. O resultado revelador mostrou que a prole dessas fêmeas infectadas desenvolveram sintomas semelhantes ao autismo, como distanciamento e ansiedade.

Os filhotes de ratos passaram a desenvolver o chamado “intestino permeável”, no qual moléculas produzidas pelas bactérias intestinais fluem para o sangue e possivelmente para o cérebro – uma condição também observada em crianças com autismo.

Mas como essas bactérias influenciam o comportamento?

Para descobrir, os cientistas analisaram o sangue dos ratos. O sangue de camundongos “autistas” continha uma enorme quantidade de 4EPS, uma molécula produzida por bactérias intestinais. Além do mais, injetar a 4EPS em ratos saudáveis tornou-os mais ansiosos. Uma molécula similar foi detectada em níveis elevados em pacientes com autismo.

Eles então começaram a alimentar dos animais com B. fragilis , um probiótico capaz de tratar problemas gastrointestinais em camundongos – e os resultados foram incríveis!

Cinco semanas depois, os pesquisadores descobriram que o intestino permeável dos ratos “autistas” havia se fechado e os níveis de 4EPS no sangue tinham declinado acentuadamente. Pareciam ratos mais saudáveis ​​- de dentro para fora. Não só sua flora intestinal chegou a se assemelhar mais com as de ratos saudáveis, mas eles também estavam menos ansiosos e não tão envolvidos em comportamentos repetitivos, como escavações repetitivas. Eles eram mais comunicativos, também.

Porém, os ratos não deixaram de apresentar problemas social, quando colocado outro rato dentro da gaiola eles se mostraram desinteressados.

Os pesquisadores enfatizam que os resultados são em ratos, e que provavelmente, o tratamento precisaria ser suplementado com outras terapias que lidam com deficiências sociais. Além disso, na melhor das hipóteses, o tratamento pode funcionar em apenas uma parcela da população autista, os que sofrem com problemas gastrointestinais.

 

Este artigo contém partes dos textos originalmente postados em Spectrum e Ozy.
Imagens: Bruce Hall e reprodução da internet.